Ora a bíblia é um "manual de maus costumes"! Chegam os católicos e os judeus, todos ofendidos, de mão a barafustar, a dizer que o Saramago não sabe o diz, que não tem autoridade, que nem devia ter 1 prémio Nobel, etc, etc ...
E não é verdade que no Antigo Testamento há muitas histórias arrepiantes? Comecemos pela primeira, a tal a que ele vai buscar o título, a de Abel e Caim! E desafio todos a procurarem mais, vão ver com que facilidade elas aparecem. Sendo que de facto a bíblia está cheia de histórias arrepiantes, também está carregada de histórias lindíssimas, de heróis e lutadores da vida. A história de Noé, a história do filho pródigo, entre muitas outras. A Bíblia é um repositório de histórias que fazem parte de uma civilização: reflecte naturalmente o mau e o bom dessa civilização.
Saramago diz mais, que nós somos bem mais misericordiosos do que Deus, que tem um castigo macabro para os pecadores: o inferno; enquanto nós temos prisões - das quais se pode sair findo o período de penitência; e que as guerras religiosas nunca serviram para aproximar o homens: e isto também não é mentira nenhuma, ou é?
Não creio que Saramago esteja a criticar Deus, a mim parece-me mais que está a criticar uma parte dos homens e a sua tentativa de impor uma religião aos outros homens, diria que está a ilustrar esse tal lado mau, esse lado mesquinho dos homens.
Por isso, não me parece que a atitude da igreja e seus representantes, bem como da representante dos judeus tenham estado à altura. Pelo contrário apenas deram de si uma imagem que corrobora com o tal "manual de maus costumes" e muito despeitada por sinal.
Em vez de se mostrar ofendida e sentir atacada, o que a igreja deveria ter dito, era que a Bíblia tem de facto histórias assustadoras, mas que está também recheada de bons exemplos, que se Saramago optou por ilustrar um evento cruel da bíblia talvez sirva para atrair mais gente para a leitura da bíblia e dos seus bons exemplos.
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